segunda-feira, 26 de outubro de 2026
MANCHETES

Turismo sustentável ganha espaço nos roteiros do Rio Grande do Sul

O turismo sustentável no Rio Grande do Sul vem se fortalecendo com roteiros que combinam natureza, cultura, gastronomia, agricultura familiar e mobilidade de baixo impacto. A proposta busca distribuir renda, preservar paisagens e valorizar os modos de vida das comunidades locais.

O turismo sustentável no Rio Grande do Sul vem ocupando espaço em roteiros que combinam contato com a natureza, valorização cultural, gastronomia regional e participação das comunidades locais. Em diferentes regiões do Estado, a oferta turística passou a incluir experiências em propriedades rurais, circuitos de bicicleta, visitas a agroindústrias familiares, observação de paisagens e atividades ligadas à produção de vinhos, queijos, azeites e alimentos orgânicos.

Mais do que reduzir impactos ambientais, a proposta busca fazer com que o turismo gere benefícios econômicos e sociais duradouros. Para o Ministério do Turismo, a atividade sustentável deve considerar as dimensões ambiental, econômica, sociocultural e de gestão. Na prática, isso significa preservar os recursos naturais, respeitar os moradores, valorizar a identidade dos destinos e distribuir melhor a renda produzida pelos visitantes. O órgão federal define o turismo responsável como uma atividade que procura reduzir efeitos negativos e ampliar os resultados positivos nos locais visitados. (gov.br)

Roteiros que aproximam o visitante da produção local

Uma das principais expressões do turismo sustentável no Estado está no turismo rural. A modalidade aproxima o visitante de propriedades familiares, pequenas agroindústrias, vinícolas, olivais, criações de animais e áreas de cultivo. Em vez de concentrar o consumo em grandes centros turísticos, os roteiros levam parte da renda para comunidades do interior e ampliam as possibilidades de trabalho para as famílias que vivem no campo.

O modelo também transforma atividades produtivas em experiências de visitação. O turista pode acompanhar etapas de fabricação de alimentos, conhecer técnicas de cultivo, participar de degustações e comprar diretamente de quem produz. Essa aproximação favorece a comercialização de produtos locais e ajuda a preservar conhecimentos transmitidos entre gerações.

O portal da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul reúne opções como a Via Orgânica, voltada à produção agroecológica e artesanal, além de roteiros rurais que associam gastronomia, agricultura, paisagens e tradições regionais. A iniciativa mostra que a sustentabilidade não se limita a áreas protegidas ou atividades de aventura: ela também pode estar presente na forma como os alimentos são produzidos, comercializados e consumidos. (turismo.rs.gov.br)

Cicloturismo amplia alternativas de baixa emissão

O cicloturismo é outro segmento que vem ganhando espaço nos roteiros gaúchos. A atividade permite percorrer áreas rurais e pequenas cidades em um ritmo mais lento, com menor dependência de veículos motorizados e maior contato com a paisagem. Além do benefício ambiental, o deslocamento de bicicleta estimula paradas em restaurantes, cafés, hospedagens, propriedades rurais e pontos de venda de produtos locais.

Na Serra Gaúcha, o Cicloturismo Vale do Espumante oferece circuitos de diferentes níveis de esforço entre paisagens rurais, vinhedos, matas nativas, construções ligadas à colonização italiana e pequenas comunidades. Segundo a descrição oficial do roteiro, os trajetos podem ser feitos de forma autoguiada ou com acompanhamento de condutor, com percursos sinalizados e opções de extensão distintas. (turismo.rs.gov.br)

A expansão do cicloturismo também cria demanda por serviços especializados, como aluguel e manutenção de bicicletas, transporte de bagagens, guias, pontos de apoio e hospedagens adaptadas para receber os visitantes. Quando planejada de forma integrada, a atividade ajuda a distribuir o fluxo turístico e reduz a concentração em poucos atrativos.

Natureza, conservação e turismo de experiência

O Rio Grande do Sul reúne ambientes naturais distintos, como áreas de Mata Atlântica, campos do bioma Pampa, serras, cânions, lagoas e faixa litorânea. Esses cenários sustentam atividades de ecoturismo, turismo de aventura, caminhadas, observação da fauna e contemplação da paisagem.

A utilização turística desses espaços, porém, exige planejamento. Trilhas, mirantes, rios e áreas de preservação precisam contar com regras de visitação, orientação aos turistas, manejo adequado de resíduos e medidas de segurança. A presença de visitantes pode contribuir para a conservação quando gera recursos e fortalece a importância econômica da proteção ambiental, mas também pode causar danos quando ocorre sem controle.

O Sistema Estadual de Unidades de Conservação inclui áreas administradas pelo poder público em diferentes regiões do Estado. Esses espaços têm objetivos de conservação que precisam ser compatibilizados com eventuais atividades turísticas, respeitando limites de uso, infraestrutura disponível e normas específicas de cada unidade. (sema.rs.gov.br)

Por isso, o turismo de natureza não deve ser entendido apenas como uma oportunidade de exploração econômica das paisagens. A sustentabilidade depende da capacidade de conservar os ambientes visitados e de garantir que a atividade não comprometa os recursos naturais que tornam o destino atrativo.

Identidade cultural como parte da experiência

Nos roteiros do Rio Grande do Sul, a sustentabilidade também está ligada à preservação da memória e da identidade cultural. A gastronomia, os costumes rurais, a arquitetura, as festas tradicionais, o artesanato e as narrativas das comunidades formam parte importante da experiência oferecida aos visitantes.

O turismo pode contribuir para manter essas referências vivas quando reconhece os moradores como protagonistas, e não apenas como prestadores de serviço. A participação comunitária ajuda a definir o que será apresentado, como será apresentado e quais limites devem ser respeitados. Também reduz o risco de transformar manifestações culturais em produtos desconectados de sua origem.

Esse cuidado é especialmente importante em destinos que recebem visitantes interessados em conhecer modos de vida, comunidades tradicionais e processos históricos de ocupação do território. A atividade turística precisa evitar representações estereotipadas e garantir que os benefícios econômicos retornem, de alguma forma, às pessoas e aos grupos que mantêm essas práticas.

Turismo sustentável também depende de planejamento

A sustentabilidade não é determinada apenas pelo comportamento do visitante ou pela iniciativa isolada de um empreendimento. Ela depende de políticas públicas, infraestrutura, qualificação profissional, mobilidade, sinalização, gestão de resíduos, acesso à água e energia, segurança e produção de informações sobre o fluxo turístico.

O Ministério do Turismo incluiu a sustentabilidade, a adaptação às mudanças climáticas, a inclusão social, a acessibilidade e a qualificação dos serviços entre as diretrizes de ações estruturantes previstas para 2026. A orientação indica que o setor passou a tratar a sustentabilidade como parte do planejamento dos destinos, e não apenas como um diferencial de marketing. (gov.br)

No Rio Grande do Sul, essa preocupação ganhou importância adicional depois dos eventos climáticos extremos que afetaram o Estado em 2024. A recuperação da infraestrutura, a avaliação dos riscos e a preparação para novos eventos meteorológicos passaram a fazer parte do debate sobre o futuro do turismo. Em regiões sujeitas a enchentes, deslizamentos ou períodos de estiagem, a retomada da atividade precisa considerar a segurança dos moradores, dos trabalhadores e dos visitantes.

O desafio é conciliar a reconstrução e a expansão da oferta turística com critérios de resiliência. Isso envolve escolher locais adequados para novos equipamentos, melhorar sistemas de alerta, revisar rotas de acesso e preservar áreas naturais que desempenham funções importantes no controle da água e na proteção do solo.

O papel do visitante na sustentabilidade

O turista também participa diretamente dos resultados de uma viagem. A escolha de prestadores regularizados, guias locais, hospedagens comprometidas com boas práticas e restaurantes que utilizam produtos da região pode fortalecer a economia do destino.

Outras atitudes simples incluem evitar o desperdício de água e energia, levar embalagens reutilizáveis, não retirar elementos naturais dos locais visitados, respeitar trilhas sinalizadas, não alimentar animais silvestres e destinar corretamente os resíduos. Em áreas rurais e comunidades pequenas, é importante observar regras de visitação, pedir autorização para fotografar pessoas e respeitar espaços privados.

A contratação de atividades de aventura deve considerar a experiência do prestador, os equipamentos utilizados, as orientações de segurança e as condições climáticas. Em roteiros de caminhada, bicicleta ou contato com rios e cânions, o planejamento do passeio deve levar em conta o nível de dificuldade, o tempo previsto e a estrutura disponível no percurso.

Desafios para consolidar o modelo

Apesar do crescimento das iniciativas, ainda existem desafios para transformar o turismo sustentável em uma prática consistente em todo o Estado. Muitos empreendimentos de pequeno porte precisam de apoio para melhorar a gestão, divulgar seus produtos, obter licenças, qualificar equipes e acessar canais de comercialização.

Também é necessário ampliar a produção de dados. Sem informações sobre número de visitantes, consumo de água, geração de resíduos, impacto sobre trilhas e distribuição da renda, torna-se difícil avaliar se um roteiro é de fato sustentável. O uso do termo não deve se limitar à divulgação: é preciso estabelecer metas, acompanhar resultados e corrigir problemas.

Outro ponto é a integração entre municípios. Como muitos roteiros atravessam mais de uma cidade, a mobilidade, a sinalização e a promoção dependem de acordos regionais. A atuação conjunta pode reduzir custos, melhorar a experiência do visitante e evitar que cada município planeje o turismo de forma isolada.

O próprio Ministério do Turismo destaca que ações de responsabilidade ambiental, sociocultural e econômica precisam envolver turistas, prestadores de serviços, profissionais, gestores públicos e comunidades receptoras. A sustentabilidade, portanto, não é uma tarefa exclusiva de um setor, mas um compromisso compartilhado entre todos os participantes da cadeia turística. (gov.br)

Um novo olhar sobre os destinos gaúchos

O avanço do turismo sustentável abre espaço para uma oferta mais diversificada no Rio Grande do Sul. Além dos destinos já consolidados da Serra, das praias e das regiões históricas, pequenos municípios e propriedades rurais podem se integrar ao mapa turístico por meio de experiências específicas e de menor escala.

Esse movimento favorece viagens mais distribuídas ao longo do ano, reduz a pressão sobre os destinos em períodos de alta temporada e amplia as fontes de renda das comunidades. Para o visitante, a vantagem está na possibilidade de conhecer o Estado por diferentes perspectivas: em uma rota de bicicleta, em uma feira de produtores, em uma caminhada pela serra, em uma visita a uma agroindústria ou em uma experiência ligada à cultura local.

O turismo sustentável nos roteiros gaúchos ainda está em processo de consolidação, mas já revela uma mudança na forma de organizar e consumir viagens. O foco deixa de ser apenas o volume de visitantes e passa a incluir a qualidade da experiência, a preservação do território e a permanência dos benefícios econômicos nas comunidades que recebem os turistas.