A história do Gre-Nal se confunde com a própria formação do futebol no Rio Grande do Sul. O clássico entre Grêmio e Internacional nasceu em Porto Alegre no início do século 20 e, ao longo de mais de cem anos, foi construído por goleadas, decisões de campeonato, grandes jogadores e disputas que ultrapassaram os limites do campo.
O primeiro confronto ocorreu em 18 de julho de 1909, na Baixada, estádio que pertencia ao Grêmio. O time tricolor venceu o recém-fundado Internacional por 10 a 0, resultado que permanece como a maior goleada da história do clássico. A partida foi disputada em um período no qual o futebol ainda se organizava na capital gaúcha e os dois clubes tinham trajetórias bastante recentes. (cas.internacional.com.br)
Como surgiu a rivalidade entre Grêmio e Internacional
O Grêmio foi fundado em 1903. O Internacional surgiu seis anos depois, em 1909, por iniciativa dos irmãos Henrique Poppe Leão, José Eduardo Poppe e Luiz Madeira Poppe. A criação do clube colorado esteve ligada à chegada dos irmãos a Porto Alegre e ao desejo de praticar futebol em uma cidade na qual os clubes existentes tinham regras de associação mais restritas.
De acordo com a história oficial do Internacional, o novo clube buscava reunir pessoas de diferentes origens e nacionalidades. Nos primeiros anos, a equipe teve ligação com a região da Ilhota e passou por diferentes campos até se estabelecer na Chácara dos Eucaliptos, na década de 1910. O Grêmio, por sua vez, já tinha uma trajetória anterior e maior experiência competitiva quando enfrentou o rival pela primeira vez. (internacional.com.br)
Essa diferença de tempo de existência ajuda a explicar o placar do jogo inaugural. O Grêmio entrou em campo com uma equipe mais organizada, enquanto o Internacional ainda dava os primeiros passos. Edgar Booth marcou cinco gols, Grünewald fez quatro e Moreira completou o resultado. Booth também anotou o primeiro gol da história do Gre-Nal. (cas.internacional.com.br)
O primeiro Gre-Nal e a consolidação do clássico
O duelo de 1909 não foi planejado, originalmente, como o início de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. O Internacional procurava um adversário para disputar sua primeira partida e entrou em contato com o Grêmio. A diretoria gremista chegou a considerar a possibilidade de escalar o segundo quadro, mas a partida acabou sendo disputada com a equipe principal.
O resultado criou uma marca simbólica desde o início: o Grêmio venceu com larga vantagem e estabeleceu uma superioridade que permaneceu nos primeiros anos do confronto. Em 1911, os gremistas voltaram a golear, desta vez por 10 a 1. A reação colorada viria gradualmente, à medida que o clube se fortalecia e passava a competir com mais regularidade em Porto Alegre. (cas.internacional.com.br)
A expressão Gre-Nal também se incorporou cedo ao vocabulário esportivo. A versão mais difundida atribui ao jornalista Ivo dos Santos Martins a criação do termo, em 1926, como uma forma abreviada de escrever Grêmio e Internacional. Com o tempo, o nome deixou de ser apenas uma abreviação e passou a representar uma rivalidade esportiva com identidade própria. (pt.wikipedia.org)
O Gre-Nal Farroupilha e a importância no futebol gaúcho
Uma das primeiras partidas a ganhar um significado especial foi o chamado Gre-Nal Farroupilha, disputado em 22 de setembro de 1935. O jogo valia o Campeonato Citadino de Porto Alegre, em uma temporada marcada pelas comemorações do centenário da Revolução Farroupilha.
O Internacional tinha a vantagem do empate, mas o Grêmio venceu por 2 a 0, com gols de Foguinho e Laci, e conquistou o título. A partida também ficou marcada por ter sido o último Gre-Nal do goleiro Lara, um dos nomes históricos do Grêmio, que morreu dois meses depois. O episódio ajudou a consolidar a tradição de associar o clássico a momentos decisivos da história dos clubes. (ge.globo.com)
Nas décadas seguintes, o Gre-Nal passou a ocupar posição central no Campeonato Gaúcho. Durante boa parte do século 20, as principais decisões estaduais reuniram os dois clubes. A rivalidade deixou de ser apenas uma disputa entre equipes da capital e passou a representar uma divisão esportiva presente em diferentes regiões do Rio Grande do Sul.
O equilíbrio e as diferentes fases da rivalidade
A história do clássico não foi marcada por uma única hegemonia. Grêmio e Internacional alternaram períodos de domínio, formando ciclos que alimentaram a ideia de uma “gangorra” entre os rivais.
O Internacional viveu uma fase de grande força nas décadas de 1960 e 1970. Em 1977, porém, o Grêmio encerrou uma sequência de conquistas estaduais do rival. Naquele campeonato, o atacante Iúra marcou em apenas 14 segundos no Gre-Nal disputado em 14 de agosto, estabelecendo o gol mais rápido registrado no confronto. A vitória gremista por 2 a 1 ajudou a abrir caminho para a conquista estadual daquele ano. (ge.globo.com)
O período também foi marcado pela afirmação do Beira-Rio como palco central do clássico. Inaugurado em 1969, o estádio colorado passou a dividir com o Olímpico Monumental os principais jogos entre os dois clubes. A alternância de mandos e a proximidade entre as duas casas contribuíram para manter a rivalidade concentrada em Porto Alegre, mas com repercussão em todo o estado.
O Gre-Nal do Século, em 1989
O confronto mais conhecido da história do clássico ocorreu em 12 de fevereiro de 1989. Internacional e Grêmio decidiram uma vaga na final do Campeonato Brasileiro de 1988, competição cuja fase decisiva foi disputada no início do ano seguinte. O vencedor também garantiria classificação para a Copa Libertadores.
O primeiro jogo da semifinal terminou empatado em 0 a 0, no Olímpico. Na partida de volta, no Beira-Rio, o Grêmio saiu na frente com gol de Marcos Vinícius. O Internacional ainda perdeu Casemiro, expulso no primeiro tempo, mas reagiu na etapa final. Nilson marcou duas vezes e virou a partida para 2 a 1.
Com quase 80 mil pessoas no estádio, o duelo entrou para a memória do futebol brasileiro como o Gre-Nal do Século. O nome foi criado pelo jornalista Lauro Quadros para destacar o peso da decisão: era a primeira vez que os rivais se enfrentavam em uma semifinal de competição nacional, com vaga na final e na Libertadores em disputa. (ge.globo.com)
Ídolos e partidas que marcaram gerações
O Gre-Nal também se tornou uma vitrine para jogadores que construíram suas carreiras nos dois clubes. Ao longo dos anos, nomes como Falcão, Valdomiro, Fernandão, D’Alessandro e Taffarel defenderam o Internacional em partidas importantes. Pelo Grêmio, jogadores como Renato Portaluppi, Paulo Nunes, Ronaldinho, Jardel e Danrlei ajudaram a transformar clássicos em capítulos de suas trajetórias.
Alguns jogos ganharam apelidos próprios. Em 1984, o Grêmio venceu o Internacional por 4 a 2 no chamado Gre-Nal da Entrega das Faixas, em uma partida que reuniu o campeão mundial e o campeão gaúcho da temporada anterior. Em 1997, o Internacional venceu por 5 a 2 no Olímpico, em atuação de destaque do atacante Fabiano, jogo que ficou conhecido pela expressão “Uh, Fabiano!”. (ge.globo.com)
Outro momento lembrado é a final do Campeonato Gaúcho de 1999. O Grêmio venceu o Internacional por 2 a 0 no Olímpico, com gol de Ronaldinho, então com 19 anos. O meia teve atuação destacada e o clássico passou a ser associado ao início de uma trajetória que o levaria ao título de melhor jogador do mundo alguns anos depois. (ge.globo.com)
O Gre-Nal em competições nacionais e internacionais
Durante grande parte do século 20, os principais encontros entre Grêmio e Internacional ocorreram em competições estaduais e no Campeonato Brasileiro. Com a expansão dos torneios nacionais e continentais, o clássico passou a alcançar novos palcos e a envolver objetivos maiores do que o título estadual.
Em 1989, o Grêmio conquistou a primeira edição da Copa do Brasil, enquanto o Internacional avançou à final do Campeonato Brasileiro após vencer o Gre-Nal do Século. A coincidência de campanhas reforçou a presença dos dois clubes no cenário nacional e ampliou a dimensão da rivalidade.
O primeiro Gre-Nal da história da Copa Libertadores foi disputado em 2020. A partida ocorreu na fase de grupos e terminou empatada em 0 a 0. O jogo ficou marcado pela inédita presença dos dois clubes no principal torneio sul-americano de clubes, além de expulsões nos minutos finais. (ge.globo.com)
Por que o Gre-Nal é tão importante no Rio Grande do Sul
A força do Gre-Nal está relacionada à continuidade. Poucos clássicos mantêm a mesma rivalidade por mais de um século, atravessando mudanças de estádio, gerações de jogadores, transformações no futebol e diferentes formatos de campeonato.
O confronto também ocupa um espaço que vai além dos 90 minutos. As cores azul, preto e branco do Grêmio e vermelho e branco do Internacional aparecem em famílias, escolas, locais de trabalho e espaços públicos. Para muitos torcedores, escolher um dos clubes é uma tradição transmitida entre gerações.
Essa dimensão social não elimina a necessidade de responsabilidade. Como em outros grandes clássicos, o Gre-Nal já foi marcado por episódios de tensão e violência. A rivalidade esportiva, no entanto, não deve ser confundida com hostilidade ou agressão. O valor histórico do confronto está na competição, na memória e na capacidade de produzir personagens e partidas que permanecem no imaginário do futebol.
Um clássico que continua em construção
A história do Gre-Nal não termina nas partidas mais antigas nem nos jogos que receberam apelidos. Cada novo encontro acrescenta uma camada à rivalidade entre Grêmio e Internacional. Uma vitória em um campeonato estadual, uma classificação nacional, o surgimento de um ídolo ou uma virada inesperada podem transformar uma partida comum em referência para as próximas décadas.
Desde o 10 a 0 de 1909 até o Gre-Nal do Século, passando pelo Gre-Nal Farroupilha, pelas disputas do Campeonato Brasileiro e pelo encontro inédito na Libertadores, a trajetória do clássico mostra como dois clubes de Porto Alegre se tornaram símbolos do futebol do Rio Grande do Sul. É essa combinação de história, proximidade e equilíbrio em diferentes épocas que mantém o Gre-Nal entre os confrontos mais relevantes do esporte brasileiro.


