segunda-feira, 26 de outubro de 2026
CIDADES

Gramado: como a cidade se tornou um dos principais destinos turísticos do país

A história de Gramado combina paisagem serrana, imigração, transporte, planejamento turístico e grandes eventos. Esse conjunto transformou o município do Rio Grande do Sul em um dos destinos mais conhecidos do Brasil.

A história de Gramado, na Serra Gaúcha, é resultado da combinação entre características naturais, formação cultural, transporte, investimentos públicos e iniciativa privada. O município, conhecido pelas baixas temperaturas, pela arquitetura inspirada em referências europeias, pela gastronomia e pelos eventos, não se tornou um destino nacional apenas por causa da paisagem.

A transformação foi gradual. Primeiro, a área serviu como passagem e ponto de descanso para tropeiros e viajantes. Depois, recebeu famílias ligadas às correntes de ocupação alemã, italiana e portuguesa que avançaram pela região serrana. No século 20, a chegada da ferrovia ampliou a circulação de pessoas. Mais tarde, eventos como o Festival de Cinema e o Natal Luz ajudaram a distribuir o fluxo turístico ao longo do ano.

Hoje, Gramado integra a chamada Região das Hortênsias e se consolidou como um dos principais destinos turísticos do Rio Grande do Sul e do país. Dados do IBGE mostram que o município tinha 40.134 habitantes no Censo 2022. A população residente, porém, é apenas uma parte das pessoas que circulam pela cidade ao longo do ano.

De caminho de tropeiros a núcleo de ocupação

Antes de se tornar uma cidade associada a hotéis, parques e festivais, o território de Gramado fazia parte das rotas que conectavam os vales e a Serra Gaúcha. Tropeiros que conduziam animais e outros viajantes utilizavam os caminhos serranos e encontravam áreas de descanso no percurso.

A origem do nome Gramado é explicada por diferentes versões. Uma delas relaciona a denominação aos campos de grama macia usados como ponto de repouso. Outra associa o termo ao caminho de acesso entre o Vale dos Sinos e a Serra Grande. A própria documentação turística municipal apresenta as duas possibilidades, sem tratar uma delas como explicação definitiva.

A ocupação por grupos de origem europeia se intensificou na segunda metade do século 19. Registros históricos locais apontam a presença de famílias de descendentes de portugueses, alemães e italianos em diferentes momentos. Muitos imigrantes chegaram a partir de colônias já estabelecidas em áreas próximas, como Nova Petrópolis, São Leopoldo, Taquara e Caxias do Sul.

Esse processo formou uma sociedade rural baseada em pequenas propriedades, produção de alimentos e relações comerciais com os municípios do entorno. As marcas dessa formação permanecem na culinária, nas festas comunitárias, na arquitetura, nos sobrenomes e em roteiros de turismo rural que apresentam antigas localidades do interior.

A história da região, no entanto, não se resume à imigração europeia. Estudos reunidos pelo acervo histórico municipal também chamam atenção para a presença anterior de povos originários e para a participação de negros, caboclos, tropeiros e outros grupos na formação regional. A narrativa turística tradicional de Gramado enfatizou durante muito tempo as heranças alemã, italiana e portuguesa, mas a história local é mais ampla e envolve diferentes populações.

A organização administrativa e a chegada da ferrovia

O crescimento do povoado acompanhou o aumento da população e da produção. Em 1904, a localidade passou a ser sede do 5º Distrito de Taquara. Em 1913, a sede distrital foi transferida para a área que corresponde ao centro atual, em razão da proximidade com a ferrovia em implantação.

A conexão ferroviária foi um dos primeiros fatores decisivos para a abertura de Gramado ao turismo. A linha chegou à região de Várzea Grande em 1919, de acordo com registros preservados pelo projeto Memórias de Gramado. O trem facilitou o deslocamento de moradores, comerciantes e visitantes e aproximou o município de outros centros do estado.

O transporte ferroviário não criou sozinho a atividade turística, mas ampliou as condições para que ela se desenvolvesse. A circulação de pessoas favoreceu o comércio, a construção de hospedagens e a divulgação das paisagens serranas. Ao mesmo tempo, o clima passou a ser apresentado como um atrativo, especialmente para visitantes interessados em temperaturas mais amenas no verão e no frio do inverno.

Em 1938, Gramado foi elevada à condição de vila. O município conquistou a emancipação político-administrativa de Taquara em 15 de dezembro de 1954, por meio da Lei Estadual nº 2.522. A criação do município deu maior autonomia à administração local e criou condições para políticas próprias de urbanização, infraestrutura e promoção turística.

O clima e a paisagem como atrativos

A vocação turística de Gramado foi associada, desde cedo, à paisagem serrana. Araucárias, hortênsias, neblina, geadas e a possibilidade de ocorrência de neve contribuíram para construir uma imagem diferente daquela predominante em grande parte do país.

O município está situado em uma área de altitude elevada, com clima característico da Serra Gaúcha. Durante o inverno, as baixas temperaturas se tornaram parte da experiência oferecida aos visitantes. No verão, a cidade passou a ser promovida como alternativa ao calor de outras regiões. Essa capacidade de atrair públicos em diferentes estações ajudou a reduzir a dependência de um único período do ano.

A paisagem também foi incorporada à identidade urbana. Ruas arborizadas, canteiros floridos, praças, lagos e fachadas inspiradas em referências europeias passaram a compor uma imagem cuidadosamente associada à hospitalidade e ao romantismo. A chamada “Suíça brasileira”, expressão usada na divulgação turística, tornou-se uma das marcas simbólicas de Gramado, embora a cidade tenha uma formação cultural própria e ligada à história do Rio Grande do Sul.

O Festival de Cinema e a projeção nacional

Um dos principais pontos de virada na história do turismo em Gramado ocorreu em 1973, com a primeira edição do Festival de Cinema. O evento foi reconhecido pelo então Instituto Nacional de Cinema e teve organização envolvendo a prefeitura, empresas de comunicação, órgãos culturais e instituições ligadas ao setor audiovisual.

Segundo o Festival de Cinema de Gramado, a primeira edição foi realizada de 10 a 14 de janeiro de 1973. O filme “Toda Nudez Será Castigada”, de Arnaldo Jabor, recebeu o prêmio de melhor filme. A presença de artistas, produtores, jornalistas e profissionais da indústria cinematográfica levou o nome da cidade para além do circuito turístico regional.

O festival também ajudou a criar uma associação entre Gramado e a produção audiovisual brasileira. Nas décadas seguintes, o evento ganhou reconhecimento, incorporou mostras latino-americanas e passou a entregar o Kikito, troféu que se tornou conhecido no cinema nacional.

Mais do que atrair visitantes durante os dias de programação, o festival produziu uma imagem duradoura. Gramado passou a ser lembrada como cidade de eventos, cultura e visibilidade nacional. A estratégia mostrou que o turismo poderia ser impulsionado não apenas pela natureza, mas também pela criação de uma agenda cultural própria.

O Natal Luz e a busca por movimento durante todo o ano

Outro marco foi a criação do Natal Luz, em 1986. A proposta surgiu em um momento em que o município buscava fortalecer o movimento turístico fora dos períodos tradicionalmente associados ao inverno e ao Festival de Cinema.

A programação natalina incorporou iluminação urbana, apresentações musicais, desfiles e espetáculos. Com o passar do tempo, tornou-se um dos eventos mais conhecidos de Gramado e ampliou a temporada de visitas entre o fim do ano e o início do ano seguinte.

O modelo ajudou a transformar a decoração e os eventos em produtos turísticos. Hotéis, restaurantes, lojas, agências, parques e prestadores de serviço passaram a trabalhar com uma programação extensa, capaz de estimular permanências mais longas e novas viagens.

A existência de atrações em diferentes épocas é uma das razões pelas quais Gramado não depende exclusivamente do frio. O calendário inclui eventos culturais, gastronômicos, musicais, empresariais e ligados às tradições dos grupos que formaram a população local. A Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul destaca, entre eles, a Festa da Colônia, o Festival de Cinema, o Festival de Gastronomia, o Chocofest e o Gramado In Concert.

Infraestrutura, gastronomia e diversificação

O crescimento do turismo exigiu mais do que divulgação. A cidade ampliou a rede hoteleira, diversificou restaurantes, qualificou espaços para eventos e estruturou serviços voltados a diferentes perfis de visitantes.

A hotelaria passou a atender desde pousadas e estabelecimentos de menor porte até hotéis de padrão elevado, resorts e espaços para convenções. Essa variedade permitiu que Gramado recebesse casais, famílias, grupos de excursão, participantes de congressos e visitantes interessados em experiências gastronômicas e culturais.

A gastronomia se tornou um dos elementos centrais da identidade turística. O chocolate, o fondue, os cafés coloniais, as receitas de tradição italiana e alemã e os produtos elaborados por agroindústrias locais passaram a integrar os roteiros de visita. Em vez de funcionar apenas como serviço complementar, a alimentação se transformou em atração.

Também houve diversificação dos passeios. Além das áreas centrais e dos eventos, o município passou a oferecer parques temáticos, museus, roteiros de agroturismo, experiências ligadas à produção rural e atividades para dias de chuva. A estratégia ampliou o tempo de permanência e reduziu a dependência de atividades ao ar livre.

Uma cidade planejada para ser destino

A trajetória de Gramado mostra que destinos turísticos não surgem apenas de atributos naturais. A paisagem foi importante, mas o reconhecimento nacional dependeu de um processo contínuo de planejamento, comunicação, investimentos e participação da comunidade.

O município construiu uma identidade visual e cultural facilmente reconhecível, organizou um calendário de eventos e transformou tradições locais em experiências para o visitante. A presença de equipamentos turísticos em diferentes áreas também permitiu que a economia se expandisse para além do centro.

Esse modelo trouxe desenvolvimento e visibilidade, mas também impôs desafios. O aumento do fluxo de visitantes pressiona o trânsito, o uso do solo, os serviços públicos, a mobilidade e a preservação ambiental. A cidade precisa equilibrar a atividade econômica com a proteção de paisagens, patrimônios e modos de vida locais.

Mesmo com essas tensões, a história de Gramado ajuda a explicar sua posição entre os destinos mais procurados do Brasil. Do antigo caminho de tropeiros à programação de grandes eventos, a cidade combinou memória, imagem turística e capacidade de adaptação. Foi essa soma, mais do que um único atrativo, que transformou o município da Serra Gaúcha em uma referência nacional de turismo.