domingo, 25 de outubro de 2026
Dia a Dia

Feiras de artesanato no Rio Grande do Sul ganham espaço e movimentam milhões

As feiras de artesanato no Rio Grande do Sul ampliaram a presença em praças, eventos culturais e grandes exposições. Dados do governo estadual apontam crescimento de 85,5% no número de artesãos beneficiados com espaços de comercialização entre 2024 e 2025.

As feiras de artesanato no Rio Grande do Sul passaram a ocupar mais espaços em praças, eventos culturais, exposições agropecuárias e programações municipais. O movimento acompanha a ampliação das oportunidades de comercialização para artesãos e o fortalecimento de iniciativas ligadas à economia criativa e à economia solidária.

Dados da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), responsável pelo Programa Gaúcho de Artesanato, mostram que 1.712 artesãos foram beneficiados com espaços de comercialização em feiras e eventos em 2025. O número representa alta de 85,5% em relação a 2024, quando 923 profissionais tiveram acesso a essas oportunidades.

O crescimento aparece também nos resultados de grandes eventos. Na 42ª Exposição de Artesanato do Rio Grande do Sul, realizada durante a Expointer de 2025, foram comercializadas 27.852 peças, com vendas de R$ 2,29 milhões. O valor ficou 29,4% acima do registrado no ano anterior, segundo relatório da FGTAS.

Expointer amplia visibilidade do artesanato gaúcho

A Expointer, realizada no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio, é um dos principais pontos de encontro entre artesãos de diferentes regiões do Estado e consumidores. A feira permite que produtores de artigos de couro, madeira, tecidos, argila, bambu, porongo, cutelaria e outros materiais apresentem seus trabalhos a um público numeroso e diversificado.

Na edição de 2026, o Pavilhão do Artesanato Gaúcho reuniu 202 expositores de 56 municípios em 123 estandes. Ao longo do evento, realizado de 29 de agosto a 6 de setembro, foram vendidas 60.069 peças, que somaram R$ 2.398.734 em faturamento, conforme informações divulgadas pelo governo estadual.

Entre os itens comercializados estiveram rédeas, guaiacas, chapéus, cuias personalizadas, relógios, pelegos, tapetes, boinas, alpargatas, cintos, carteiras, palas, capas, facas, paneleiros, parrillas e esculturas. A variedade revela a combinação entre produtos associados à cultura regional e peças voltadas à decoração, ao uso cotidiano e à formação de presentes.

Os dados da Expointer indicam uma forte circulação comercial, mas não representam todo o mercado de artesanato do Rio Grande do Sul. O Estado não dispõe, em uma única base pública, de um levantamento que reúna vendas de todas as feiras municipais, eventos privados, lojas, encomendas e canais digitais.

Feiras permanentes aproximam artesãos do público

Além das grandes exposições, a expansão ocorre em iniciativas regulares organizadas por prefeituras, entidades culturais e grupos de produtores. A criação de feiras permanentes ou periódicas facilita o contato entre artesãos e consumidores e transforma espaços públicos em pontos de venda e convivência.

Em Santa Cruz do Sul, a Prefeitura informou que os artesãos ultrapassaram R$ 1 milhão em vendas desde fevereiro de 2025, quando começaram as feiras permanentes de artesanato na Praça da Bandeira. O município também relatou a realização de duas feiras mensais na Praça da Prefeitura e a participação dos produtores em eventos como a Festa das Cucas, o Enart, o Santa Cruz Multicultural e o Dia do Patrimônio.

Segundo o município, mais de mil artesãos estão cadastrados no Sistema Nacional de Emprego (Sine) local. Cerca de 80 mantêm participação ativa nas feiras organizadas pela administração municipal. A diferença entre o número de cadastrados e o de participantes regulares mostra que existe um público potencial maior do que o grupo atualmente inserido na programação comercial.

Em Pelotas, a Feira de Artesanato realizada em parceria com a Secretaria de Cultura reúne cerca de 90 expositores aos sábados e aproximadamente 50 às sextas-feiras, segundo informações da Prefeitura. O evento inclui trabalhos de crochê, costura criativa, pedras, bijuterias, cosméticos naturais e papelaria artesanal, além de flores, plantas, doces e bolos.

A feira também evidencia o papel da atividade na renda de mulheres. De acordo com a administração municipal, a maioria dos expositores é formada por mulheres, para quem a comercialização em eventos pode representar tanto uma fonte complementar quanto a principal renda da família.

Artesanato, identidade regional e economia criativa

O crescimento das feiras não se limita ao aumento das vendas. Os eventos funcionam como vitrines para técnicas, materiais e referências culturais de diferentes regiões do Estado. Peças produzidas com couro, porongo, lã, madeira, fibras naturais e tecidos carregam elementos associados às tradições gaúchas e às identidades locais.

Em muitos municípios, o artesanato é apresentado junto a produtos da agricultura familiar, gastronomia, música, literatura e artes visuais. Essa integração amplia o fluxo de visitantes e cria novas possibilidades de consumo. A feira deixa de ser apenas um ponto de compra e passa a fazer parte da programação cultural e turística da cidade.

Em Erechim, por exemplo, a Feira Criativa foi incorporada à programação da Feira do Livro e reuniu mais de 40 expositores. O evento combinou artesanato, artes visuais, produtos orgânicos, discos de vinil e atividades culturais na Praça Prefeito Jayme Lago.

Em Rio Grande, a Quitanda Cultural, criada em 2015, reúne artesanato e economia solidária na Praça Xavier Ferreira. A iniciativa já contou com aproximadamente 70 expositores desde sua criação, de acordo com a Prefeitura. O município também realiza feiras com grupos ligados a centros de referência de assistência social, universidades, comunidades indígenas, agricultura familiar e organizações de economia popular solidária.

Retomada após as enchentes de 2024

O avanço registrado em 2025 ocorreu em um período de reconstrução do Rio Grande do Sul após as enchentes que atingiram o Estado em maio de 2024. O desastre afetou moradias, oficinas, estoques, espaços de venda e rotas de circulação de muitos trabalhadores.

Por isso, o aumento de 85,5% no número de artesãos beneficiados com espaços de comercialização precisa ser interpretado também como parte de uma retomada das atividades. A ampliação das feiras ajudou a restabelecer canais de venda e a recolocar produtores em contato com consumidores de diferentes municípios.

O relatório da FGTAS aponta que as ações de comercialização foram acompanhadas por serviços de orientação, divulgação e apoio ao artesão. O Portal do Artesanato Gaúcho passou a concentrar informações sobre produtores, coletivos, espaços comerciais, feiras, cursos e oficinas. A plataforma também oferece serviços relacionados à Carteira do Artesão e à emissão de nota fiscal eletrônica.

A digitalização pode reduzir etapas burocráticas e facilitar a participação em editais e eventos. Ainda assim, o acesso às ferramentas digitais não elimina desafios como transporte, custo de materiais, montagem de estandes, formação de preços e regularidade da produção.

Desafios para transformar visibilidade em renda

O aumento de feiras e expositores não significa que todos os artesãos tenham o mesmo resultado financeiro. As vendas variam conforme o local, o perfil do público, a duração do evento, a estrutura oferecida e a capacidade de cada produtor para manter estoque e divulgar o trabalho.

Também há diferenças entre feiras voltadas ao turismo, eventos culturais, programações comunitárias e grandes exposições. Em alguns casos, o artesanato ocupa um espaço central. Em outros, divide a atenção com alimentação, música, agricultura familiar e comércio de produtos variados.

Outro desafio é a ausência de estatísticas estaduais consolidadas. Os números divulgados por municípios e órgãos públicos ajudam a identificar tendências, mas não permitem calcular com precisão o faturamento total do setor ou o número de pessoas que dependem exclusivamente da atividade.

Também não há, nos dados disponíveis, uma comparação abrangente entre feiras presenciais e vendas realizadas por redes sociais, plataformas digitais, encomendas diretas e lojas colaborativas. Esses canais podem ampliar o alcance dos artesãos, mas exigem investimento em fotografia, logística, atendimento e meios de pagamento.

Perspectivas para o setor

A tendência de expansão das feiras de artesanato no Rio Grande do Sul está relacionada à combinação de fatores como valorização da produção local, busca por produtos autorais, retomada de eventos presenciais e políticas públicas de apoio à comercialização.

A participação do Estado em eventos nacionais também contribui para divulgar a produção gaúcha fora do território estadual. Em 2026, a FGTAS abriu seleção para artesãos e entidades representativas interessados em participar da Feira Nacional de Negócios do Artesanato, a Fenearte, com apoio do Programa do Artesanato Brasileiro.

Para que o crescimento se mantenha, especialistas e gestores públicos ainda precisam avançar em áreas como qualificação, acesso a crédito, logística, comunicação, formação de preços e organização coletiva. A criação de calendários integrados entre municípios poderia facilitar a circulação do público e dos expositores.

As feiras, portanto, consolidam-se como espaços de venda, divulgação cultural e geração de renda. Os resultados da Expointer, de eventos municipais e de programas estaduais mostram que há demanda por produtos artesanais e por experiências ligadas à cultura local. O próximo passo é transformar essa visibilidade em uma política permanente de desenvolvimento para os artesãos de todas as regiões do Rio Grande do Sul.

Fontes: Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social, governo do Rio Grande do Sul, Prefeituras de Santa Cruz do Sul, Pelotas, Erechim e Rio Grande.