segunda-feira, 26 de outubro de 2026
CIDADES

Bento Gonçalves: a força da cultura do vinho no Rio Grande do Sul

Bento Gonçalves consolidou sua identidade em torno da uva e do vinho. A atividade, iniciada com a colonização italiana, hoje sustenta roteiros turísticos, festas tradicionais, vinícolas familiares e uma reconhecida paisagem cultural na Serra Gaúcha.

A cultura do vinho em Bento Gonçalves ocupa um lugar central na identidade do município e na formação econômica e social da Serra Gaúcha. A produção de uvas e vinhos se desenvolveu a partir da colonização italiana, ganhou escala ao longo do século 20 e, com o tempo, passou a integrar também a gastronomia, as festas populares, a arquitetura rural e o turismo.

Localizada na Encosta Superior do Nordeste do Rio Grande do Sul, Bento Gonçalves reúne vinhedos, pequenas propriedades, vinícolas familiares, empresas de maior porte e roteiros que apresentam ao visitante diferentes etapas da produção. O vinho, nesse contexto, não é apenas uma bebida ou um produto comercial. Ele funciona como elemento de memória, trabalho e pertencimento.

Imigração italiana ajudou a formar a identidade local

A história de Bento Gonçalves está ligada à criação dos núcleos coloniais de Conde d’Eu e Dona Isabel, estabelecidos no século 19. Segundo o histórico municipal compilado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a ocupação da área se intensificou com a chegada de imigrantes europeus, especialmente italianos, a partir da década de 1870. Em 1876, chegaram colonizadores provenientes de Trento e, posteriormente, de outras áreas do Tirol e do Vêneto. (ibge.gov.br)

Essas comunidades trouxeram práticas agrícolas, hábitos alimentares, formas de organização familiar e referências culturais que foram adaptadas às condições da região. O cultivo da videira encontrou espaço entre outras atividades rurais e se tornou, ao longo das gerações, uma das principais expressões da presença italiana no município.

A transmissão desse conhecimento ocorreu, em grande parte, dentro das famílias. Técnicas de plantio, colheita, armazenamento e elaboração do vinho foram repassadas entre gerações, ao mesmo tempo em que incorporaram avanços tecnológicos e novas exigências de mercado. Essa combinação entre tradição e inovação permanece como uma das características da vitivinicultura de Bento Gonçalves.

Do vinho colonial à produção profissional

Nas primeiras décadas da colonização, o vinho estava associado ao consumo doméstico, às celebrações religiosas e à alimentação das famílias. A produção era feita em pequena escala e estava inserida na rotina das propriedades rurais. Com a expansão das comunidades e a melhoria das vias de transporte, o produto passou a alcançar mercados mais amplos.

A evolução do setor foi acompanhada pela criação de cooperativas, pelo surgimento de vinícolas e pela adoção de técnicas mais precisas de cultivo e elaboração. A pesquisa agropecuária também contribuiu para a adaptação de variedades de uvas, o aperfeiçoamento dos métodos de produção e a busca por maior qualidade.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) registra a importância histórica da vitivinicultura na Serra Gaúcha e em Bento Gonçalves, região que se tornou um dos principais centros brasileiros de produção de uvas e vinhos. (infoteca.cnptia.embrapa.br)

Esse processo não eliminou a produção familiar. Ao contrário, muitas propriedades mantiveram estruturas de pequena escala e passaram a receber visitantes, oferecendo degustações, refeições, explicações sobre o trabalho no campo e contato direto com os produtores. O resultado foi a aproximação entre produção agrícola, hospitalidade e preservação cultural.

Vale dos Vinhedos representa a paisagem cultural do vinho

Entre os principais símbolos da cultura vitivinícola de Bento Gonçalves está o Vale dos Vinhedos. A região reúne propriedades rurais, vinícolas, restaurantes, hospedagens e paisagens marcadas por parreirais e estradas entre colinas. O território também se tornou referência brasileira na valorização da origem e das características próprias de seus vinhos.

O Vale dos Vinhedos recebeu uma Indicação Geográfica em 2002 e uma Denominação de Origem em 2012, conforme registros apresentados em documentos do município. Essas certificações reconhecem a relação entre o produto, o território e os critérios específicos de produção. A área da Indicação Geográfica abrange partes de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul. (bentogoncalves.rs.gov.br)

Mais do que delimitar uma área produtora, esse sistema reforça a importância da paisagem e da história local. Vinhedos, capelas, casas antigas, cantinas, caminhos rurais e formas de trabalho compõem um conjunto que ajuda a explicar como o vinho se tornou parte da vida comunitária.

A paisagem do Vale dos Vinhedos também mostra os efeitos da transformação econômica da região. Propriedades que antes tinham como foco principal a agricultura passaram a combinar o cultivo da uva com atividades de visitação, hospedagem e alimentação. Esse movimento ampliou as fontes de renda e fortaleceu o turismo rural.

Caminhos de Pedra preserva memória e tradição

Outro roteiro associado à cultura do vinho em Bento Gonçalves é o Caminhos de Pedra. O percurso reúne construções de pedra e madeira relacionadas à imigração italiana, além de restaurantes, empreendimentos familiares, lojas de produtos coloniais e vinícolas.

A arquitetura é um dos principais elementos de identificação do roteiro. As casas históricas ajudam a mostrar como as famílias se estabeleceram na região e organizaram suas atividades. A preservação desses imóveis transformou o patrimônio rural em parte da experiência turística, sem separar a história da produção de alimentos e bebidas.

O roteiro também abriga eventos que combinam esporte, gastronomia e vinho. A Wine Run, por exemplo, foi apresentada pela Prefeitura de Bento Gonçalves como uma atividade que une corrida, caminhada e experiências relacionadas à cultura do vinho, com passagem por áreas de vinhedos e participação de empreendimentos locais. (bentogoncalves.rs.gov.br)

Festas populares transformam o vinho em celebração coletiva

A cultura do vinho também se manifesta nas festas do município. A Fenavinho, Festa Nacional do Vinho, teve sua primeira edição em 1967 e contribuiu para projetar Bento Gonçalves como uma referência nacional da vitivinicultura. A programação tradicional inclui degustações, minicursos, atividades culturais, jogos coloniais, desfiles e o chamado Vinho Encanado, uma das marcas históricas do evento. (bentogoncalves.rs.gov.br)

A festa expressa uma característica importante da relação de Bento Gonçalves com o vinho: a atividade não está restrita às vinícolas. Ela envolve moradores da área urbana e do interior, associações comunitárias, restaurantes, produtores, trabalhadores do comércio e grupos culturais.

Durante a época da colheita, a programação do Bento em Vindima retoma práticas associadas à tradição dos imigrantes, como a pisa das uvas, os filós, o merendin, as apresentações musicais e as danças típicas. Em 2025, o calendário municipal também relacionou as comemorações à celebração dos 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul. (bentogoncalves.rs.gov.br)

Essas atividades cumprem uma função turística, mas também ajudam a manter referências culturais presentes no cotidiano. A música, a culinária, o uso de expressões de origem italiana e a participação das comunidades rurais fazem parte de uma memória coletiva que se renova em cada edição dos eventos.

Enoturismo amplia a economia regional

O enoturismo transformou a maneira como o visitante conhece Bento Gonçalves. Em vez de apenas comprar uma garrafa, o turista pode acompanhar a paisagem dos parreirais, visitar instalações de produção, entender os métodos de elaboração, participar de degustações e experimentar pratos associados à culinária da Serra Gaúcha.

O modelo também distribui os benefícios do turismo entre diferentes setores. Hotéis, pousadas, restaurantes, agências, transportadoras, produtores rurais e estabelecimentos de produtos coloniais integram a cadeia criada em torno dos roteiros da uva e do vinho.

Dados divulgados pela Secretaria Municipal de Turismo, referentes ao primeiro trimestre de 2021, apontaram a presença de visitantes no Vale dos Vinhedos, no Caminhos de Pedra, no Vale do Rio das Antas, nas Cantinas Históricas e em outros roteiros. O levantamento mostrou ainda que a visitação se distribui entre áreas rurais e urbanas, indicando que o turismo do vinho não se limita a um único circuito. (bentogoncalves.rs.gov.br)

Embora os números sejam de um período específico e não representem necessariamente o cenário atual, o levantamento ajuda a evidenciar a diversidade da oferta turística de Bento Gonçalves. A cidade combina experiências em vinícolas, patrimônio histórico, gastronomia, natureza e atividades culturais.

Vinícolas familiares mantêm o vínculo com o campo

A presença de vinícolas familiares é uma das marcas da vitivinicultura de Bento Gonçalves. Em muitas propriedades, o visitante encontra uma produção diretamente ligada à história da família, ao cultivo próprio e à elaboração em pequena escala.

A Prefeitura informou, em 2023, que o município contava com 42 agroindústrias familiares, sendo 16 vinícolas familiares. Na mesma ocasião, foi apresentado um projeto de incentivo ao plantio de uvas de qualidade, desenvolvido com participação da Emater, da Embrapa e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul. (bentogoncalves.rs.gov.br)

Iniciativas desse tipo mostram como a continuidade da cultura do vinho depende da permanência das famílias no meio rural e da capacidade de agregar valor à produção. A venda direta, a recepção de turistas e a oferta de produtos artesanais podem complementar a renda e reduzir a dependência de um único canal comercial.

Ao mesmo tempo, a produção familiar enfrenta desafios relacionados ao clima, aos custos, à sucessão rural, à concorrência e às exigências de qualidade. A valorização do território e da origem pode ajudar a diferenciar os produtos, mas exige organização, planejamento e preservação dos padrões de produção.

Tradição e inovação convivem na Serra Gaúcha

A força da cultura do vinho em Bento Gonçalves está justamente na convivência entre diferentes tempos. De um lado, permanecem as técnicas familiares, as festas comunitárias, as casas históricas e os rituais da colheita. De outro, avançam a pesquisa, o controle de qualidade, a profissionalização do turismo e a busca por novos estilos de vinho.

Essa combinação permite que o município preserve sua identidade sem transformar a tradição em algo estático. A cultura do vinho continua sendo atualizada por novas gerações de produtores, empreendedores, cozinheiros, pesquisadores e trabalhadores do turismo.

Em Bento Gonçalves, a videira também organiza uma narrativa sobre o território. Ela conecta imigração, trabalho agrícola, desenvolvimento econômico, patrimônio, gastronomia e hospitalidade. Por isso, falar do vinho no município é falar de uma cultura construída ao longo de décadas e ainda presente nas paisagens e nas relações sociais da Serra Gaúcha.

Mais do que uma marca turística, o vinho representa uma forma de contar a história local. Em cada parreiral, vinícola, cantina ou festa de vindima, Bento Gonçalves reafirma a ligação entre a terra, a memória das famílias e a capacidade de transformar uma tradição agrícola em patrimônio cultural e atividade econômica.