domingo, 25 de outubro de 2026
MANCHETES

Regiões de fronteira do Rio Grande do Sul preservam costumes e histórias singulares

As regiões de fronteira do Rio Grande do Sul reúnem paisagens do Pampa, cidades gêmeas, antigas áreas de conflito e patrimônios ligados às Missões Jesuíticas. A convivência com Argentina e Uruguai influenciou o vocabulário, a alimentação, o trabalho no campo, as festas e a memória histórica desses territórios.

As regiões de fronteira do Rio Grande do Sul preservam costumes e histórias que não cabem inteiramente nas divisões políticas do mapa. Ao longo dos limites com a Argentina e o Uruguai, a circulação de pessoas, mercadorias, palavras e hábitos ajudou a formar uma identidade cultural própria, marcada pela vida no Pampa, pela criação de gado, pelo chimarrão, pela carne assada, pelas festas campeiras e por uma memória histórica ligada a guerras, disputas territoriais e encontros entre povos.

A fronteira gaúcha também reúne diferentes paisagens e trajetórias. No oeste e no sul, estão cidades ligadas às planícies do Pampa, às estâncias e às antigas rotas de circulação. No noroeste, a presença do rio Uruguai conecta municípios brasileiros a localidades argentinas e aproxima comunidades que compartilham práticas econômicas e culturais. Na região das Missões, ruínas, museus e sítios arqueológicos guardam o legado de povos indígenas guarani e da experiência jesuítica colonial.

O resultado é uma faixa territorial em que a fronteira funciona menos como separação e mais como espaço de contato. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística considera faixa de fronteira a área interna de até 150 quilômetros paralela à linha divisória terrestre do país. No Rio Grande do Sul, essa faixa reúne 196 municípios, além de áreas associadas à Lagoa Mirim e à Lagoa dos Patos. (ibge.gov.br)

Uma fronteira formada por disputas e deslocamentos

A formação histórica do Rio Grande do Sul esteve ligada às disputas entre as coroas portuguesa e espanhola pelo controle do sul da América. Antes da consolidação das fronteiras atuais, a região era percorrida por indígenas, tropeiros, militares, religiosos, comerciantes e criadores de gado. A posição estratégica entre o litoral atlântico, o estuário do rio da Prata e os territórios que hoje pertencem ao Uruguai e à Argentina transformou o espaço em área de circulação e conflito.

As primeiras reduções jesuíticas organizadas no território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul surgiram no século XVII. Depois de diferentes deslocamentos e conflitos, os chamados Sete Povos das Missões se consolidaram na margem oriental do rio Uruguai. Esses povoados desenvolveram atividades agrícolas, criação de animais, produção de erva-mate e trabalhos artesanais, com participação decisiva dos guarani. (atlassocioeconomico.rs.gov.br)

A presença do gado também teve papel importante na ocupação dos campos. Rebanhos introduzidos durante o período colonial se espalharam por áreas do Pampa e contribuíram para o desenvolvimento de uma economia baseada na pecuária. A atividade pastoril, combinada com a experiência de tropeiros e estancieiros, ajudou a moldar práticas de trabalho, formas de sociabilidade e símbolos associados à figura do gaúcho.

Essa história não foi composta por um único grupo. A formação cultural do estado envolveu povos indígenas, africanos, portugueses, espanhóis, açorianos e, em períodos posteriores, imigrantes alemães e italianos. Na fronteira, entretanto, a proximidade com os países vizinhos fez com que as influências platinas permanecessem especialmente visíveis na linguagem, na culinária, na música e nos modos de vida. (cultura.rs.gov.br)

O Pampa e a cultura das estâncias

Nas áreas de campanha e fronteira oeste, o Pampa é mais do que uma paisagem. O bioma organiza a relação das comunidades com o território e está associado a uma longa tradição de criação de gado, deslocamento a cavalo e trabalho em propriedades rurais. Coxilhas, campos abertos e banhados compõem um cenário no qual a atividade pecuária permanece ligada à memória familiar e à identidade regional.

As estâncias, além de unidades produtivas, são referências culturais. Nelas se desenvolveram práticas de manejo dos animais, técnicas de montaria, formas de preparo dos alimentos e conhecimentos transmitidos entre gerações. Rodeios, provas de laço, gineteadas e atividades campeiras continuam presentes em eventos e celebrações, embora assumam formatos diferentes conforme o município e a comunidade.

O vestuário tradicional, o uso do cavalo, o lenço, a bombacha e o chimarrão são elementos frequentemente associados à cultura gaúcha. Na região de fronteira, muitos desses símbolos encontram correspondentes no Uruguai e na Argentina, onde também se desenvolveram sociedades pastoris e formas semelhantes de relação com o campo. A proximidade histórica ajuda a explicar semelhanças entre costumes dos dois lados da divisa.

A culinária expressa essa continuidade cultural. A carne bovina e ovina, o arroz carreteiro, os doces em calda, a ambrosia e o mate aparecem em diferentes contextos da vida fronteiriça. O preparo e o nome dos pratos podem variar, mas a base alimentar está relacionada à pecuária, às antigas viagens e à disponibilidade de produtos nas áreas rurais. A Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul identifica esses elementos como parte do conjunto de tradições preservadas na Fronteira Oeste. (cultura.rs.gov.br)

Cidades gêmeas e convivência cotidiana

Em alguns pontos do estado, a convivência entre brasileiros e habitantes dos países vizinhos ocorre de maneira particularmente intensa. São as chamadas cidades gêmeas, municípios cortados pela linha de fronteira ou articulados a uma localidade estrangeira próxima. Segundo o IBGE, essas cidades apresentam potencial de integração econômica e cultural e podem formar áreas de conurbação ou de circulação diária entre os dois países. (ibge.gov.br)

Sant’Ana do Livramento e Rivera, no Uruguai, são um dos exemplos mais conhecidos. A separação política não impede a circulação de moradores, trabalhadores, estudantes e consumidores. Em áreas de fronteira seca, a linha divisória pode ser pouco perceptível na paisagem urbana, enquanto as diferenças legais, administrativas e monetárias continuam presentes no cotidiano.

Uruguaiana e Paso de los Libres, ligadas pelo rio Uruguai, também representam essa dinâmica. O rio, que poderia funcionar apenas como limite, tornou-se eixo de conexão para o comércio, o transporte e as relações sociais. São Borja e Santo Tomé, assim como outras localidades próximas, compartilham vínculos construídos por famílias, atividades econômicas, festividades e deslocamentos frequentes.

Essa integração não significa ausência de problemas. Estudos sobre a faixa de fronteira do Rio Grande do Sul apontam desafios relacionados à infraestrutura, à perda populacional e à necessidade de ampliar a cooperação regional. A fronteira é, ao mesmo tempo, espaço de oportunidades e território marcado por dificuldades de transporte, acesso a serviços e coordenação entre diferentes administrações públicas. (revistas.planejamento.rs.gov.br)

O legado guarani e as Missões Jesuíticas

Na porção noroeste do estado, a história da fronteira também é contada pelas Missões Jesuíticas Guarani. O sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, preserva as ruínas de uma antiga redução jesuítica e integra um patrimônio cultural transfronteiriço relacionado a outros remanescentes localizados na Argentina.

As ruínas de São Miguel das Missões foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1938 e inscritas na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1983. O conjunto faz parte de um sistema de missões construídas nos séculos XVII e XVIII em territórios associados aos povos guarani. (museudasmissoes.acervos.museus.gov.br)

O Museu das Missões, criado em 1940, reúne esculturas sacras e fragmentos arquitetônicos relacionados aos antigos povoados. O acervo evidencia a produção artística desenvolvida nas reduções e a participação dos indígenas na elaboração das imagens, na construção dos edifícios e na organização da vida comunitária. O edifício do museu foi projetado pelo arquiteto Lucio Costa. (museudasmissoes.acervos.museus.gov.br)

A memória missioneira, porém, não se resume às pedras das ruínas. Ela permanece em nomes de lugares, festas, canções, narrativas familiares e referências à presença guarani. O reconhecimento dessa herança ajuda a ampliar a compreensão sobre a formação do Rio Grande do Sul e a evitar uma leitura da história regional baseada apenas na atuação de militares, estancieiros e colonizadores europeus.

Linguagem, festas e memória

O contato com países de língua espanhola deixou marcas no modo de falar das comunidades fronteiriças. Vocábulos, pronúncias e expressões podem circular entre o português e o espanhol, especialmente em cidades onde o trânsito de pessoas é parte da rotina. Essa mistura linguística não constitui uma língua única e uniforme, mas revela a convivência histórica entre populações próximas.

As festas tradicionais também funcionam como espaços de preservação e atualização da memória. Desfiles, encontros de música, rodeios, celebrações religiosas e eventos ligados à produção rural reúnem moradores e visitantes em torno de referências compartilhadas. Em muitos municípios, essas atividades ajudam a transmitir conhecimentos sobre o trabalho no campo, a culinária e as narrativas da formação territorial.

A preservação, no entanto, depende de mais do que festividades. Museus, arquivos, escolas, centros culturais e iniciativas comunitárias têm papel decisivo na conservação de documentos, objetos, edificações e relatos orais. A valorização da cultura fronteiriça exige reconhecer diferentes grupos sociais e evitar que a identidade regional seja apresentada como resultado de uma única origem.

Uma identidade construída no encontro

As regiões de fronteira do Rio Grande do Sul preservam costumes singulares porque foram moldadas por encontros sucessivos. A experiência indígena, a presença africana, as heranças ibéricas, a imigração europeia e a proximidade com Argentina e Uruguai formaram uma sociedade marcada pela diversidade e pela circulação.

O Pampa, as cidades gêmeas, os rios, as estâncias e as ruínas missioneiras compõem diferentes capítulos de uma mesma história regional. Em vez de representar apenas uma linha de separação entre países, a fronteira gaúcha revela como culturas distintas podem compartilhar práticas, memórias e paisagens. É nesse espaço de aproximações, conflitos e continuidades que se preserva uma das expressões mais complexas da formação histórica do Rio Grande do Sul.